"A linguagem interior é uma linguagem muda, silenciosa"
Vigostki

terça-feira, 27 de março de 2012

Na hora em que abriu o livro, sentiu as páginas revelarem mais do que pensava. Parecia que sua vida passava diante seus olhos, comprimidas em pequenas letrinhas. Carregavam consigo toda a significação de seus melhores e piores momentos.

Percebeu que a cada página, seu esforço de uma vida inteira era decodificado. Que noites em claro folheando outros como aquele poderiam fazer sentido... que esforços não eram em vão, e que pelas vezes em que escutava os risos de descontração que vinham lá debaixo, enquanto fazia-se enclausurada exercitando o hábito do apreender, poderiam ser recompensados.

A recompensa não era material. Não mesmo. Aliás, seria interessante se fosse... somente para variar um pouco... mas não. A casca não revelava quantas milhares de letrinhas pequenas, como aquelas, faziam inúmeras conexões em seu interior. Somado ao que aprendeu em duros caminhos pela vida, ainda havia muito o que pensar, muito em que se pensar e muito do que se pensou. E quando das idéias confusas saiu um belo sopro, transformado em comentário, viu à sua volta olhares de exclamação. Aí sim. Teve certeza! Tudo valeu muito a pena!

terça-feira, 13 de março de 2012

Tinha tentado escrever por vezes. A cada duas frases, a tela retornava branca... assim como surgiu. Não que não tivesse nada para escrever, ou que nada de produtivo passasse pela sua cabeça... mas não sabia como. O pensamento não tomava forma. Era bom mas não se personificava, nem se auto-retratava.

Aos poucos foi se preocupando menos em achar uma lógica para todo esse processo, e passou a pensar menos na obrigação. Escreve-se por sentimento. Porque algo transborda-lhe o corpo, os dedos, e simplesmente todo esse "furor" é revertido em palavras. Nem sempre belas, ou organizadas... mas sinceras.

E daí, a ter que escrever porque sabia que deveria, fez perder todo o sentido. Quando da sua cabeça saiu a vontade adulta de ser "escritora de sonhos" e passou a ser "sonhadora dos escritos", tudo pareceu melhor. Era fácil. As palavras vinham à sua cabeça em uma velocidade assustadora, que ficava até difícil de escrever. Ou melhor... as palavras vinham de sua alma... 

Está aí. Encontrou a fórmula novamente. A questão principal não era o pensamento. Era o sentimento.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Com o passar dos anos já não se consegue enxergar todas as cores, todos os tons... a nitidez está comprometida. Os anos levam o delinear, os contornos... como se eles deixassem de existir "no que se vê", e passassem a se fixar "em quem os vê". Os anos dão sinais, trazem cicatrizes... que por vezes deixam de ser externas. 

Seria implacável a ação do tempo sobre qualquer que fosse aquele que tentasse atravessar os ponteiros do relógio?...

Infelizmente, a melhor máquina do tempo que conseguiram fazer até hoje é a tal da lembrança. Permite  nos transportar de volta à infância... ao primeiro "tombo" de bicicleta, ... à adolescência,... ao primeiro beijo... à primeira desilusão... momentos alegres... tristes... Mesmo assim, somente como um bom observador. Só assistimos de fora. Nada de interferência. O que já foi feito... está lá.

Entretanto, não pretendo aqui julgar os atos e as escolhas feitas. Apenas paro para pensar o quanto o tempo é sábio. O quão importante é a ação dele sobre a vida. Não há maneiras de retroceder, mas há caminhos de, por um engrandecimento dado pelo passado, agir de maneira diferente para que não se crie mais arrependimentos. 

O tempo nos marca, e a cada "risco" possuímos uma nova característica, que somada àqueles momentos alegres e tristes, nos torna únicos. E nada mais precioso do que sermos únicos. Agradeça ao tempo, que a cada  segundo lhe torna mais experiente, mais peculiar, mais... único.